Carta ao meu pai

janeiro 21, 2013 at 2:21 am Deixe um comentário

Por Paulo Fonteles Filho

paulo

Nos últimos 25 anos temos convivido com o teu desaparecimento – violento e precoce – de forma muito dura e o sentimento de impotência têm sido uma constante em nossas vidas, porque, apesar de sempre buscarmos seguir o teu exemplo, seja pela militância política, seja pela conduta pessoal, a impunidade é absolutamente devastadora e os dias – por vezes, terríveis – vai nos afastando de nosso último encontro naquele 10 de Junho de 1987, um dia antes de ser morto.

Mas fazer o quê? Senão seguir a vida, não é mesmo meu pai?

Ontem passei a noite em claro pensando nessas coisas todas e me perguntava se passaríamos a vida toda com esse sentimento, o da impunidade e que se continuaríamos, pelo resto de nossos caminhos, com a espada de Damos sobre nossas cabeças, desta imensa luta, sobretudo dentro de nós: a luta contra o esquecimento e contra o abatimento, manifestação de quem se vê humilhado pela imensa violência daquele distante e triste Junho de 1987.

O que é pior é que a coisa toda vai acontecendo, mais mortes por encomenda, mais poderosos debochando sobre o sangue derramado, mais autoridades que se enforcam nas gravatas da impunidade, mais juízes optando pelo vil metal, mais dias, noites, e tudo vai nos dando, sempre, a dimensão de que é comum tais ações de pura infâmia que se abateram sobre teus trinta e oito anos e que devemos moldar nossos espíritos para que se acostumem as desgraças de ontem, de hoje e sobretudo para aquelas que nos reservam o futuro. Estaremos nos acostumando aos violentos?

E a espiral vai moldando o cenário aterrador em que o grande risco é a acomodação e a aceitação das três balas, estampidos que ainda nos matam todos os dias, que te calaram os olhos, olhos vigilantes aos profundos problemas do povo, que te levaram o riso, o dedo em riste, a eloquência e a paixão, mais que rubra de quem canta o mundo novo e o homem que vai se forjando à esteira do tempo.

Te procuro na noite chuvosa. Não eras apenas o político, o agitador, fiel ao que pensava e como tal agia.

Tinhas grandes sonhos – para além de um país mais justo e democrático – e gostarias de ter vivido bem mais, de poder ter brincado irresponsavelmente com teus netos, de ter tido mais tempo para o amor, para os livros, para ensinar e aprender, para ter mais rebentos – irmãos que nos levaram -, para ter mais amigos e cultivar os velhos, para escrever poemas e romances de uma vida toda que não foi porque os algozes, que têm as centauras mãos do dinheiro, que estão nos governos e no judiciário, simplesmente decidiram marcar hora para que teus mais belos sonhos fossem sepultados. Mas não foram!

Desculpe-me o desabafo, mas certas coisas nunca passam e nem devem passar com o risco de que fiquemos desfibrados. Dentro da gente, sinto, há uma mão que sufoca e outra que empurra, e a angústia vai se tornando norma que ilustra a realidade que somos, todos nós, empurrados à enfrentar.

Ao falar-te isso lembro do Chaplin, em “O grande ditador”. Aliás, todo homem e toda mulher não podem passar pela vida sem compreender o discurso – este sim, verdadeiramente revolucionário – de 1940.

Lá pelas tantas ele forja os espíritos e sentencia: “Soldados, não se entreguem a esses homens cruéis. Homens que desprezam e escravizam vocês, que querem reger suas vidas, e te dizer o que pensar, o que falar, o que sentir, que treinam vocês e tratam com desprezo para depois serem sacrificados na guerra. Não se entreguem a esses homens artificiais. Homens-máquina, com mente e coração de máquina. Vocês não são máquinas, vocês não são desprezíveis, você é homem (…). Soldados, não lutem pela escravidão, lutem pela liberdade!”.

Faço esse aparte do eterno “Carlitos” para dizer que por vezes, tais “homens cruéis” são refinados com suas togas de mármore e vivem numa realidade nababesca, distantes das imensas necessidades da justiça, possibilidade inalcançável para a grande maioria do povo brasileiro.

Mas é preciso recobrar o ânimo e a sede de justiça e falando-te assim falo aos meus botões, sempre.

Muitos, os que antes bradavam, passaram a aceitar e querem que o tema fique cada vez mais velho para que morra tal qual faz o curso do esquecimento. Não temos esse direito!

Amanhece e escuto “Guantanamera”. E a guajira vai me fazendo lembrar de minha mãe, Hecilda.

Logo aqui ao lado minha mulher, Angelina, dorme com minha filha caçula, Sophia Lautaro.

Veja meu pai que ali está o João Carlos Haas, nome de guerrilheiro que destes ao filho em homenagem ao “Juca” do Araguaia. Mais tarde encontrarei o Ronaldo e o Pedrinho. Estamos tramando, como carbonários, para que o dia chegue prenhe de pão e terra para os posseiros. Passa por meus pensamentos a canção da liberdade guardiã.

Conheces bem – tua morada – os imensos sertões. Ali estás insurreto pela coragem camponesa.

Mas do que nunca é decisivo forjar, primeiro na gente, a convicção e recobrar a luta porque ela não foi em vão. Aqui lembro de tua mãe, Cordolina, e daqueles olhos viscerais por justiça, de vibração longeva, de ódio aos covardes senhores do latifúndio. A memória deve seguir nos inspirando pelos dias e pelas noites porque essa história está longe do fim.

Naquele poema de Conceição do Araguaia, de despedida, dizias que estaríamos de fuzis, libertando-te, e sinto o aço entre os dedos, o aço das palavras, das vozes que não dormem, que tremulam como bandeiras da esperança contra a loucura malsã.

Não estás morto, insepulto, porque temos pedras nas mãos.

Texto e imagem: Facebook

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