Matinta Perera

julho 21, 2011 at 4:16 pm 3 comentários

Matinta Perera,

de tardinha vem buscar

o tabaco que ontem à noite

eu prometi,

queira Deus ela não venha me agoniar,

Ah! Matinta, preta velha, mãe-maluca,

pé de pato.

queira Deus ela não venha me agoniar……

Matinta Perera – Waldemar Henriqu e Antônio Tavernard


Hoje não escreverei sobre software livre, política, educação, filosofia ou farei referências a alguma obra literária.

Estou de férias em Itarumanzinho um pequeno sítio pertencente a família da Maria, localizado no Município de Curuçá, bem próximo de Marapanim.

São cerca 126 quilômetros de uma viagem que gosto de fazer a noite para vislumbrar o céu cheio de estrelas que em Belém não consigo mais ver.

A vida Itarumanzinho segue outro ritmo e aproveito a oportunidade para esquecer engarrafamentos, as tensões e disputas do mundo do trabalho e usufruir da paz que uma vida simples pode proporcionar.


Em Itarumanzinho a noite posso admirar o céu e me indago sobre a origem da vida.

Penso sobre o Big Bang, a grande explosão que segundo os cientistas foi origem de tudo que posso observar de Itarumanzinho.

O céu é lindo e minha sobrinha Mayra fica encantada com o brilho de pequenos meteoritos que podem ser observados cortando o céu o que aguçar a sua curiosidade, provocando inquietações que minha companheira Maria procura responder.


Deitado na rede adoro escutar o canto do Bacurau, um pássaro que tem o hábito de cantar a noite e dormir de dia e escutar histórias que passam de geração em geração e que infelizmente por falta de registro e pelo avanço do progresso correm o risco de serem esquecidas.

É que as tradições vão perdendo seus espaços para a televisão e artefatos produzidos pela chamada sociedade tecnológica. Não sou xenófobo, creio que como seres humanos precisamos conhecer a cultura de diferentes povos, mas como indivíduos que nascemos na Amazônia temos como tarefa principal valorizar e preservar a cultura que nos foi transmitida por nossos ancestrais.


Antes de dormir reunimos a família para narrar estranhos fatos que aconteceram no sítio Itarumanzinho. Dona Jaciara, minha sogra, sempre conta uma história que aconteceu com seu pai Manuel, conhecido como Zito e sua mulher Diquinha.

Tudo começou em uma noite em 1970. Os seus pais resolveram pernoitar na casa de uma cunhada e foram surpreendidos por uma luz que ficou conhecida mais tarde por chupa-chupa.

Amedrontados decidiram fugir trazendo a senhora que tinha aproximadamente 60 anos. foi uma fuga desesperada e o chupa-chupa os perseguiu até as proximidades do sítio Itarumanzinho, gritaram por socorro, mas seus amigos não escutaram porque o rádio estava ligado em volume muito alto.

Sobreviveram por causa do latido dos cachorros e chegaram muito assustados no sítio Itarumanzinho. Por muito pouco não se transformaram em mais uma vítima do famoso chupa-chupa amazônico, que mais tarde deixaria em pânico os habitantes do Município de Colares,


Conta-se, também, que certa vez o irmão da minha sogra, foi acordado em virtude de uma estranha gritaria próxima ao sitio. Então observou que um de seus vizinho corria e pedia socorro, pois estava apanhando uma grande surra de cinturão.

Da janela de seu quarto ele observava aquela cena espantado, porque enxergava o homem apanhando, mas não via ninguém segurando o cinturão. Passado alguns minutos foi a vez da família do vizinho passar correndo e gritando.

Eles nunca mais voltaram a casa que continua até hoje abandonada. Dizem que lá tem uma assombração que aplica uma surra em qualquer um que se atreva na casa residir.Minhas sobrinhas Mayra e Mayara também já presenciaram fatos bizarros no sítio. Uma noite acordaram com forte assobio seguido por pisadas muito barulhentas. Chamaram minha esposa que imediatamente acordou toda a família. Ficamos todos com muito medo, mas não tivemos coragem de ver o que estava lá fora.

O fato se repetiu por três noites, na última tomamos coragem e ficamos esperando até às três horas da manhã, pois este era o horário do aparecimento pezão. Quando escutamos o assobio e as pisadas, pegamos a lanterna e de uma forma calculada abrimos a janela e focamos no possível ser, mas não avistamos nada.

O jeito foi mesmo conviver com as pisadas e os assobios durante uma semana, depois deste período o pezão o nunca mais apareceu. Tirou férias da gente!!!

Dona Jaciara nos relatou que quando não havia energia elétrica no sítio, aparecia um cavalo correndo na estrada. Um certo dia os meninos do Caju se armaram e decidiram dar uma surra no cavalo. Na noite planejada bateram no cavalo com varas, e o cavalo saiu em desespero e entrou em uma casa aberta, então quando os meninos tentaram entrar na casa escutaram a voz de Dona Maria que dizia:

– Seu bando de ladrão, vocês querem roubar minha casa.

_ Não Dona Maria , nos vimos uma cavalo entrar aí.

– Seus moleques levados, aqui não entrou cavalo nenhum, retrucou Dona Maria.
Um Belo dia Dona Maria foi tomar banho no igarapé do sítio Itarumanzinho e durante o banho Dona Diquinha – aquela que havia escapado do chupa-chupa, viu as marcas de batidas de varas nas costas daquela senhora.

Foi neste dia que a comunidade do Caju descobriu que Dona Maria virava cavalo.

Na década de 70 segundo Seu Horácio na localidade de Caju, seu tio Anunciação, vinha caminhando da localidade do Coqueiro quando às sete horas uma feiticeira apitou atrás de um riacho chamado Forquilha e continuou apitando.

Mais a frente seu Anunciação percebeu que agora eram duas Matintas que o acompanhavam – uma à frente e outra atrás, até a rodovia Marapanim. Passando a casa da Dona Creusa, em um lugar chamado Alto, várias Matintas Perera apitavam na frente e atrás, cercando e deixando Anunciação encurralado e sem opção de saída.


Anunciação já quase sem forças começou a gritar por sua esposa pedindo para ela trazer uma lamparina, pois estava no chão, paralisado e fadado pelas Matintas, Dona Conceição, já falecida, correu rápido para estrada levando a lamparina, assustando as Matintas e salvando seu marido de um final trágico.


Conta-se, ainda, que quando não havia energia elétrica as feiticeira apitavam todo dia às sete horas no Coqueiro. Seu China, um homem metido a espertalhão, decidiu desmascarar a feiticeira pegando uma chibata e foi para o local onde ela sempre passava. Escutou o apito da feiticeira e ficou na expectativa. Para sua surpresa passou por ele uma cachorrinha balançando o rabo e após sua passagem escutou novamente o apito da Matinta. Seu china aprendeu uma dura lição: Matinta Perera pode se transformar em qualquer animal.


Mas se você viajar a Curuçá não esqueça de visitar Pacamorema: a cidade das feiticeiras. Contam os mais velhos que quanto o Prefeito foi inaugurar o serviço de iluminação pública na cidade, a população se reuniu toda para assistir a cerimônia.

O Alcaide, por volta das 22 horas, fez seu discurso e acionou o dispositivo para que a cidade fosse iluminada. Quando foram acessas as luzes o povo presenciou uma cena inusitada, centenas de feiticeiras engatadas no fio elétrico de energia, pareciam bandeirinhas de festa de São de João.

Em Pacamorema existiam tantas feiticeiras que as tradicionais aparelhagens a motor, que tocavam lá, eram obrigadas a tocar a música Feiticeira, pois as mulheres só dançavam após a execução daquela canção.


Mayra, minha sobrinha, nunca toma banho no igarapé ao meio dia e a seis horas da tarde. Ela apesar de gostar muito de brincar no igarapé lembra da história contada no lugarejo sobre o desaparecimento da filha de Dona Creusa.

Dona Creusa, uma mulher trabalhadora, que adora dançar o carimbó nos dias de festa da comunidade, um dia enquanto lavava roupa se descuidou da filha. Quando deu fé a menina havia desaparecido.


A comunidade alertada do desaparecimento da menina iniciou a busca no Caju e no Coqueiro. As cinco horas da tarde um morador encontrou a menina fadada e muito machucada no meio de um tirirical. Após ser alimentada e mais calma a menina revelou que tinha sido levada pela sua mão. Foi então, que o ocorrido foi desvendado, todos logo souberam que foi a Iara, disfarçada de Dona Creusa que havia levado a criança.

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A trave… Give It Up To Me

3 Comentários Add your own

  • 1. Anônimo  |  julho 22, 2011 às 12:48 am

    Foi a melhor postagem que li no teu blog!Acho que sou suspeita para a opinião, afinal aumentou meu acervo visagento!!!Valeu.
    Estamos organizando o I encontro de contadores de histórias, já temos “casa”, será no CENTUR, mas precisamos de outros parceiros e apoiadores, tem alguma sugestão de instiuições ou empresas?

    Responder
  • 2. Anônimo  |  julho 22, 2011 às 12:53 pm

    Opa,não sou anônima!Na verdade deu um desconforto essa palavra!
    abraços Andréa Cozzi.

    Responder
  • 3. valda oliveira  |  julho 24, 2011 às 2:02 am

    Sou bem cética em relação a misticismo e lendas. A menos que exista alguma fonte documental sólida e pesquisas sérias em ramos auxiliares da ciência eu não acredito em lenda alguma. As lendas antigas foram criadas para explicar os fenômenos da natureza que o homem não compreendia. No caso da mitologia grega houve também uma boa dose de senso artístico. Não estou afirmando que a ciência é infalível, mas os grandes sábios da antiguidade não são bons exemplos de pesquisadores criteriosos. Aristóteles por, exemplo afirmou que os insetos se originavam espontaneamente do orvalho. No caso de Platão e a Atlântida creio que o grande filósofo comentou sobre este suposto continente perdido sem nenhum conhecimento de causa, baseado inteiramante em relatos sem substância produzidos por alguns aventureiros. No caso de Roma atualmente os arqueólogos e historiadores estão mais ou menos de acordo que a cidade alcançou este status por volta da época de sua fundação mítica ou seja, final do século VIII a.C. Mas que aquela região já era ocupada por pequenas aldeias desde 2000 a.C. As figuras de Romulo e seu irmão certamente não existiram. Nem mesmo os ditos sete Reis de Roma tem sua existência comprovada.

    Responder

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