O estranho caso do banheiro

abril 10, 2011 at 5:32 pm 6 comentários

Professor Aguiar,

Nas próximas linhas passo a relatar o ocorrido na escola em que trabalho no turno da tarde.

Primeiro lhe informo que sou recém-formada e estou há pouco tempo atuando em uma escola da rede estadual.

Ao realizar a ronda vespertina pela escola, identifiquei um tumulto na porta do banheiro feminino. Quando fui me aproximando, a pirralhada, principalmente da 5ª série, começou a sair correndo de dentro do recinto bradando: “estão transando no banheiro!”

Adentrei ao banheiro e solicitei ao restante d@s menin@s que saíssem, e fui verificar o que estava ocorrendo. Haviam duas portas fechadas e por baixo da porta pude identificar dois pares de sapatos descalços, um em cada porta. Imagine o que se passou pela minha cabeça?

O que estará de fato acontecendo? Seriam então dois casais, um em cada banheiro, mas porque um par de sapatos em cada banheiro?

Então, para satisfazer a minha curiosidade (imagine a d@s menin@s) empurrei com força a porta de um dos banheiros. Vi uma moça se vestindo, e ao ficar surpresa em me ver disse:

_ professora não é o que a senhora está pensando, nós estamos apenas trocando de calças, pois vestimos o mesmo número, só que a minha calça é 38 e a dele é 36, mas vou logo lhe dizendo eu não gosto de homem eu gosto mesmo é de mulher.

Em seguida empurrei a outra porta, neste recinto o menino também estava se vestindo e foi me dizendo:

_ professora eu sou gay, e ela está falando a verdade, estamos apenas trocando de calças.

E continuou…

_ a senhora vai nos levar para a diretoria?

Neste instante adentrou um rapazola no banheiro e me disse:

_ professora eu ouvi o que eles disseram e lhe asseguro, eu os conheço, eles são quem realmente estão dizendo, eles estão falando a verdade.

E o garoto que estava se vestindo, insistiu na pergunta:

_ nós vamos para a diretoria?

Por ser uma situação inusitada, de imediato não sabia o que lhes dizer, e para ganhar tempo para agir na urgência e decidir na incerteza (já que a nossa formação não nos prepara para a complexidade, a diversidade e as situações profissionais que teremos de enfrentar), solicitei seus nomes e turma. Ela me pediu uma caneta e identificou seus nomes e turmas.

Ganhei tempo e, em seguida, lhes respondi: a diretoria está aqui, no banheiro com vocês, não discrimino homossexuais e respeito a opção de vocês, entretanto, vocês não podem continuar causando este tipo de transtorno e tumulto na escola.

Da próxima vez utilizem os banheiros que a escola dispõe para apenas dois sexos, no caso, você menina usa o feminino e você, garoto, o masculino (pensei com meus manuais de pedagogia eles não cometeram nada de tão grave, pois se tivessem nas escolas banheiros que contemplassem as outras opções sexuais, esta situação, hoje inusitada, seria normal).

Professor Aguiar preciso que me aconselhe. Será que agi corretamente nesta situação?

Se fosse com o senhor, o que teria feito?

Cara preceptora, primeiramente meus parabéns por fazer a ronda na escola, quiçá os demais colegas utilizassem essa prática tão eficiente no cotidiano escolar!

Espero que também tenha sempre embaixo dos braços seu Livro de Ocorrências atualizado.

Seu relato me remontou ao ano de 1841 quando era diretor no Liceu Paraense e presenciei um caso bastante similar ao seu, mas de menos gravidade.

Lembro-me bem da jovem colegial que usava saia até o tornozelo, camisa branca de manga compridas e o mancebo com aquele uniforme tão belo de marinheiro.

Ambos, num verdadeiro ato de atentado ao pudor, passeavam lado a lado pelo jardim da escola trocando sorrisos fortuitos. A turma pasmada assistia aquele descomedimento insano!

Senti um calafrio percorrer da minha nuca ao cóccix.

Como a Sra pensei o que fazer? Um clarão repentino atravessou a massa nervosa que ocupa quase inteiramente a minha cavidade craniana e relembrei em 60 segundos as teorias de Piaget, Freinet, Montessori, Waldorf,Gardner, Karl Marx, Gyorgy Markus, Agnes Heller, Gyorgy Lukács, A. Leontiev, A. R. Luria, L.S. Vigotskii , Antonio Gramsci, Freud, Skiner,Paulo Freire, Rousseau, Freinet, Dewey, Althusser, Foucaut, Bourdieu, Saviani, Darcy Ribeiro, Kant, , Sócrates, Platão, Aristóteles, Durkheim, Lèvi-Strauss, Comenius e outros , mas nenhuma delas davam uma resposta aquele ato abjeto.

Nesse momento me vi como Hamlet em seu famoso solilóquio segurando uma adaga, ( não um crânio como muito pensam) que simboliza suas dúvidas existenciais declamando:”To be or not to be, that’s the question”? Eu, considerado por todos como o insigne da educação mundial, não encontrava um desfecho para aquela altercação?

Célebre preceptora, confiteor et tibi a Deo omnipotenti quia peccavi, pois perante a anomalia da natureza que presenciei baixei meus olhos e girei meu corpo em direção à sala da diretoria e dei por encerrado aquele sinistro dia.

Porém não a deixarei carente de resposta enviei por telégrafo um documento para a Associação Mundial de Ética Escolar em Genebra Suíça, solicitando a realização urgente de uma conferencia Internacional para discussão do caso em tela.

A Sra será convidada, com minha tradução em vários idiomas e dialetos, a ser relatora do fenômeno que vem assolando nossa tão amada escola.

Como sou um professor prevenido já verifiquei que naquela corte não tem nenhuma pendência em relação a nomeação de seu décimo primeiro juiz.

Imagem: Google

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Bumerangue Quem vai amarrar o guizo?

6 Comentários Add your own

  • 1. keyla cardoso  |  abril 11, 2011 às 2:50 pm

    Bom dia caro blogueiro! Eu como pedagoga há 30 anos gostaria de aconselhar a jovem professora para que seja mais enérgica com esses alunos. Pelo relato é possível perceber que ela é muito inexperiente, cheia de teorias.Se fosse comigo levaria os alunos para a diretoria e pediria que aplicasse uma suspensão de uma semana, depois chamaria seus responsáveis para comunicar o acontecido e recomendaria um bom castigo.
    Queria ver se eles iriam repetir essa palhaçada!
    Obrigada.

    Responder
  • 2. Joaquim Macedo  |  abril 11, 2011 às 3:03 pm

    Prof. Cavalcante,não considero esse episódio tão emblemático assim. Estamos em pleno século XXI e com a liberdade sexual é claro que iremos nos defrontrar com comportamentos muito mais liberais nas escolas e temos que está preparados para saber lidar com essa situações.
    Concordo com a postura da professora de não punir os alunos, mas ela deveria comunicar aos Técnicos Educacionais da escola para uma intervenção junto aos alunos no sentido de orientá-los sobre sua sexualidade e, é claro, conversar com os pais .
    Obs: Por favor, não encaminhe para a pedagoga Keyla, ela está 1 século atrasada.

    Responder
  • 3. Roberto Silva  |  abril 11, 2011 às 3:17 pm

    Cumprimento o Prof. Aguiar que através de sua grandiosa cultura me fez rever um erro crasso cometido por tantos anos. Sempre pensei que Hamlet havia pronunciado o ” Ser ou não ser” com um crânio em suas mãos.
    Passei essa frase a tantos alunos! E as peças que montei? Insistia para que o pobre do ator segurasse aquele crânio!
    Agora só fazendo o Mea Culpa.
    Obrigada Prof. Aguiar. Só o Sr. para saber esses detalhes.

    Responder
  • 4. Ildete Magalhães  |  abril 11, 2011 às 3:24 pm

    Colegas,que drama vocês estão fazendo com um fato tão corriqueiro nos dias atuais! Sou favorável que realmente haja nas escolas banheiros de acordo com a orientação sexual de cada um.Por que não? Não somos divididos apenas em masculino e feminino gente! Deixemos de ser preconceituosos é hipócritas.

    Responder
  • 5. Nazaré Barbosa  |  abril 12, 2011 às 12:42 am

    O Estranho Caso do Banheiro

    Ao ler a carta dirigida pela jovem professora ao Eminente Professor Aguiar comecei a pensar o Sistema Escolar Brasileiro e mais especificamente o do nosso estado do Pará. Concordo com a atitude da Prof.ª em não punir os alunos envolvidos e seu questionamento de o que fazer?
    Realmente, as escolas públicas, principalmente em nosso estado, não apresentam condições de materiais ( físicas) e muito menos pedagógicas para o manejo dessas situações. O aluno deve ser apreendido como um ser integral, holístico, total. É um ser no mundo em infinitas formas de relações daí a mudança de nosso olhar sobre ele.
    As escolas deveriam ter em seu quadro profissional uma equipe interdisciplinar com psicólogos, pedagogos e assistentes sociais para proporcionar suporte aos professores e atendimento ao aluno, através de uma proposta político-pedagógica -humanista envolvendo:
    – Acolhimento ao aluno e sua família com a escuta de sua histórias de vidas;
    – Parceria com a Rede Social e Políticas Públicas Governamentais para a inclusão tanto do aluno como da família de acordo com a vulnerabilidade apresentada;
    – Acompanhamento intensivo do aluno em risco psicossocial;
    – Sensibilização dos professores para que estabeleçam um novo olhar sobre os alunos percebendo suas dificuldades e comunicando à equipe;
    – Dinamização das aulas;
    – Implantação de metodologias criativas para despertar o interesse do aluno;
    – Tornar escola um espaço prazeroso;
    – Inserção da escola nas atividades da comunidade;
    Acredito que uma abordagem ampla com profissionais comprometidos com a educação, pode melhorar significativamente a qualidade de nosso ensino-aprendizagem.
    Atenciosamente.

    Responder
  • 6. Anônimo  |  abril 12, 2011 às 2:54 am

    Caro Prof. eu primeiro lugar Gostaria de dizer a Professora que Não existe opções sexuais, o ser humano não tem opção ele nasce hetero ou homo sexual, não existe essa questão de escolha, a pessoa simplesmente nasce. Quando passaremos a entender isto, talvez , acabaremos com essa abominável discriminação.
    Em segundo lugar, não vejo nada de errado em alunos que desejam trocarem de roupa no banheiro da escola, e isto em nada atrapalha as aulas ou fere a moralidade, o barulho, se houve, foi provocado pelos demais alunos que ficaram fazendo algazarra fora do banheiro para constranger os adolescente que estavam no banheiro

    Responder

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